IN TRANCE WE TRUST<------------------> WAVES OF SOUND


ENTREVISTA

21/12/2004
DJ Tommy
(
Highpersonic Whomen, Haltya e Pelinpala)


1 - Quando você começou a compor trance?

Tommy - Isso foi no ano 90, quando eu ganhei meu primeiro Amiga 500 (um dos primeiros computadores pessoais lançados, da série Commodore, para uso doméstico). Eu também usava um programa finlandês para sequenciar com quatro canais. Comecei direto com o mais sofisticado equipamento digital [risos], o que na época era um tanto quanto bobo.

2 - O que você ouvia nesse tempo?

Tommy - No início eu ouvia o trance feito em Frankfurt, especialmente durante os anos 90. Na realidade eu morei na Alemanha por sete anos. Algumas das coisas que eu gostava bastante eram os lançamentos da Hardhouse, e da Superstition. Lembro também de muita coisa do selo de Sven Vath, o Eye-Q. Ao mesmo tempo eu estava ouvindo Hardcore, você sabe, um som muito rápido, que toca em torno de 200 a 240 bpm. Eram uns projetos como Sea Tank e outras coisas. Eu lembro que também cheguei a ouvir os primeiros lançamentos de jungle, mas nunca me aventurei muito por ali. Eu gostava muito do som de Detroit e Chicago (fazendo referência ao som que depois veio a se desenvolver no Techno e no House, respectivamente). Na parte mais tranqüila eu ouvia mais house progressivo.

3 - Considerando seu gosto musical variado quando foi a primeira vez que você ouviu uma faixa de Goa Trance e como aquilo soou para você?

Tommy - A primeira música Goa que eu ouvi foi uma do Eternal Basement, lançada pelo selo Harthouse. Eu cheguei a ouvir algumas do Cosmic Babe, mas isso já era em 1992 ou 93. Alguns anos mais tarde eu descobri Kox Box, também lançado pela Harthouse. A Dragonfly também teve bons discos, inclusive Hallucinogen. No começo eu estava interessado no som, no jeito que a música soava nova e vibrante. A alta-qualidade e o suingue 'cool' me ganhou. E foi isso. O Trance não era só alegre e fofo, o som tinha ficado realmente interessante.

4 - E como foi que o Goa chegou na Finlândia?

Tommy - Na realidade a cena finlandesa de Goa, ou cena psicodélica, é uma das mais antigas filhas da cena original de Goa. Algumas das pessoas que estavam presentes nas primeiras festas de Goa na Índia no final da década de oitenta eram finlandesas. Eventualmente, quando elas retornaram trouxeram o som e a idéia por trás consigo. A influência do som e da cena de Goa num contexto de isolamento como a Finlândia propiciou o desenvolvimento de um som único. De uma maneira o som finlandês se desenvolveu a partir do de Goa, mas hoje apresenta uma estética distinta por influência do contexto social e das características do país. De uma certa maneira o que aconteceu com a cena finlandesa foi o mesmo que aconteceu na Austrália. A Austrália tem uma cena forte e consistente que se desenvolveu a partir de seu isolamento geográfico e características regionais.

5 - Da relação entre contexto e as pessoas, o que você acha do que hoje já chamamos de cultura club, ou cultura de dj, no trance psicodélico hoje?

Tommy- Eu acho que as pessoas prestam mais atenção às habilidades de misturagem do dj que antes, o que é interessante. Mas por outro lado isso tende a tirar o foco das músicas para o dj. No início os djs não eram muito técnicos, costumavam tocar de DAT (fita magnética digital) para DAT no meio da floresta, então a faixa recebia toda a atenção, e não o dj.
O lançe do trance é que ele tem muitass interpretações e funções. A razão
principal para mim é o som, não minhas habilidades de misturagem. Existem
muitos bons djs tocando música ruim, e vice-versa.

6 - O que o trouxe ao Brasil dessa vez e por quê?

Tommy - Eu vim pra cá pela primeira vez no final do ano passado, e por três meses viajei pelo país. Eu me aproveitei tanto que decidi voltar para tocar mais e trabalhar nos meus projetos. Dessa vez eu também estou interessado em promover os selos finladeses para quem eu trabalho, Exogenic Records e Thirteen Productions. Logo que eu cheguei eu percebi como a cena aqui era saudável e divertida e como ela estava crescendo nessa grande festa. Ao mesmo tempo eu senti muita falta de sons diferentes, principalmente de música psicodélica progressiva. Eu acredito que muito disso seja resultado da forma como a cena se desenvolveu. Percebo poucas pessoas abertas a novos sons, por exemplo, e se você toca uma música que está fora dos padrões as pessoas parecem ter dificuldade de assimilar. E sim, existem exceções a isto.
A cena brasileira, em geral, é nova e focada em Full on - que parece satisfazer o gosto atual por música para festa psicodélica. Mas eu tenho conhecido e ouvido coisas diferentes e muitos interessantes feitas por músicos brasileiros, um tipo novo de som. Eu vejo o estilo progressivo crescendo aqui, mais do que estava a um ano atrás. Acredito que teremos mais festas que misturam os dois sons, full on e progressivo dividindo o palco. Seria uma pena se não houvesse espaço por aqui para o progressivo e todos os outros sons interessantes que rolam lá fora.
Agora, uma das coisas que acontece bastante na cena brasileira eh que grande parte das pessoas que vão as festas não compram discos, elas copiam de seus amigos, ou escutam aos djs. E é isso. Dessa maneira a cena perde força por falta de recursos e as novas idéias circulam com mais dificuldade. Muitas pessoas não ouvem outros sons porque simplesmente não os conhecem, e acabam ouvindo o que todo mundo ouve.
Eu tenho certeza que existe espaço para outros sons, como o progressivo ou, o que nós finlandeses chamamos de, Finnish Madness [Loucura Finlandesa]. Eu voltei para tocar progressivo e psygressive (um progressivo mais forte, de batida levemente acelerada - 140 bpm -, orientado para clubes e afins), e tentar tocar um som diferente também. Creio que o Brasil verá mais artistas finlandeses no país nos próximos anos.

7 - Qual estilo de som você produz e qual toca como dj?

Tommy - O nome é psygressive dance music. Um som progressivo com um toque de
psicodelia para torna-la mais interessante.

8 - Quantos projetos você toca no momento?

Tommy- Três: Highpersonic Whomen, Haltya e Pelinpala. Nós, (ele e Jyrgen Sachau), acabamos de lançar o último disco do Haltya, "Electric Help Elves" em março desse ano. Agora estou trabalhando nos outros projetos novamente. Tenho sorte de poder produzir em qualquer lugar, e atualmente estou trabalhando em novas faixas aqui no Brasil, que é um lugar inspirador.

9 - Desses projetos quais você se apresenta ao vivo?

Tommy - Eu trouxe dois 'sets' ao vivo comigo - Highpersonic Whomen e Haltya. Haltya é um som com a cara do trance finlandês; já o Highpersonic Whomen soa mais familiar para a cena brasileira.

10 - Como surgiu o nome Highpersonic Whomen?

Tommy- Essa é uma boa pergunta. A maioria das pessoas não entendem o nome e o confundem com outras coisas. O nome não é uma referência a mulheres voadoras
supersônicas, mas a algo mais mundano. O nome é uma brincadeira sobre pessoas e seus estados de consciência percebidos: High faz referência a estar alto, ou chapado; per sonic quer dizer pelo sonico, ou pelo som; e whomen é na realidade uma pergunta, quem são esses homens? Então o nome é basicamente uma questão, "quem são esses homens que ficam chapados com música." Noralmente as pessoas confundem e acham que são mulheres hipersônicas (risos).

11 - Você mencionou que está trabalhando em novas faixas. Você pode nos falar um pouco sobre isso?

Tommy - Claro. Estou trabalhando no novo disco do Highpersonic para o selo Thirteen Productions. O single será lançado no final desse ano. Eu também estou trabalhando no novo disco do Pelinpala para a Exogenic Records. Como eu disse antes, é muito bom trabalhar com projetos diferentes porque você balancear entre a batida constante do psicodelico e o lado completamente absurdo da psicodelia. Dessa maneira eu não fico entendiado. Eu gosto de ouvir trance psicodélico, claro, mas eu também preciso limpar o meu ouvido com o som maluco. Acho que tenho muitas idéias na cabeça.

12 - Considerando que você produz música de estilos diferentes como você lança sua música e quais selos você se relaciona?

Tommy- Eu já lancei música por vários selos, incluindo Millenium Records, Twisted, Com.Pact, USTA, Novatekk, Digital Structures, Demon Tea etc. Entretanto eu costumo trabalhar mais perto de dois selos finlandeses, Exogenic Records e Thirteen Productions. O Exogenic Recods é na realidade um dos mais antigos, senão o mais antigo selo de trance psicodélico da Finlância. Ele começou em 1996 e tem crescido constantemente desde então. Agora eles administram três selos diferentes, Exogenic, Exogenic Breaks e Terra Records.

13 - Qual é o seu equipamento para apresentações ao vivo?

Tommy- Eu uso meu pc pessoal, uma placa de som externa Mbox, uma caixa midi, um sintetizador e outros aparelhos portáteis para que eu possa tocar em qualquer lugar. Essa é uma das vantagens de se ter um pequeno estúdio portátil, tenho mais possibilidade de viajar e produzir.

14 - E em relação ao futuro do trance psicodélico e seus estilos?

Tommy- O futuro é, e somos nós! [risos]. Se eu tivesse uma bola de cristal eu já estaria fazendo o som de amanhã. A verdade é que ninguém sabe para onde o trance psicodélico está indo. Eu acredito, entretanto, que os estilos vão continuar colidindo e se fundindo mais, resultando em mais sons novos e interessantes.
Algumas vezes parece que todas as variações já foram testadas, mas sempre tem alguma coisa nova e fresca saindo da mistura. Uma das coisas boas do trance psicodélico é que existe tanto dele que você pode sempre mudar para outro tipo se ficar cansado. Além disso, acredito que o futuro está para ser realizado por nós.